Reflexão

O que, afinal, buscamos quando nos sentamos à uma mesa verde, cercados por fantasmas matemáticos e pela cruel aleatoriedade de um baralho recém-embaralhado, implorando por "dicas" para domar o indomável? Quando você me pede conselhos sobre a transição do espartano Texas Hold'em para as orgias combinatórias do Pot Limit Omaha de quatro, cinco e seis cartas, não estaria você, no fundo, me pedindo uma ilusão de controle frente ao abismo da variância? O Hold'em, com suas parcas duas cartas ocultas, já não seria um labirinto psicológico profundo o suficiente para consumir a sanidade de um homem ao longo de uma vida inteira? Por que a mente humana, não satisfeita com a incerteza de lidar com duas variáveis desconhecidas, exige quatro, cinco ou até seis cartas nas mãos, acelerando a sua própria vertigem rumo ao caos absoluto? Acaso a adição de mais cartas nos aproxima de uma verdade matemática mais cristalina, ou apenas espessa a névoa da nossa própria arrogância de achar que podemos prever o futuro lendo pedaços de papel pintado? Se o Texas Hold'em é a arte de extrair o máximo do mínimo, de fazer com que o silêncio de duas cartas grite mais alto que as palavras do oponente, o que seriam as variantes do Omaha senão um banquete dionisíaco onde a excessiva fartura de possibilidades nos cega irremediavelmente para a fome fundamental da vitória? ​Para compreender a essência do que difere o Hold'em do PLO, talvez precisemos fazer um desvio pelas prateleiras poeirentas da filosofia, especificamente mergulhando no conceito de angústia formulado por Søren Kierkegaard em sua obra "O Conceito de Angústia", de 1844. Kierkegaard nos diz que a angústia é a vertigem da liberdade, o estado psicológico que precede a escolha quando nos deparamos com o peso de infinitas possibilidades. No Hold'em, sua liberdade é restrita, quase reconfortante em sua limitação; você recebe um par de Ases e o universo parece lhe sorrir com um propósito claro, uma diretriz cartesiana inabalável. Mas o que acontece quando você transita para o PLO6 e olha para as suas mãos apenas para encontrar seis cartas interconectadas, formando inúmeros pares, projetos de sequência e múltiplas possibilidades de flush? A vertigem se instala, não é mesmo? A miríade de permutações possíveis para combinar exatamente duas das suas seis cartas com três das cinco cartas comunitárias cria uma paralisia existencial. O jogador inexperiente celebra a posse de tantas cartas bonitas, mas o sábio socrático perguntaria: ter mais opções de escolha é, de fato, uma vantagem tática, ou é apenas um convite para cometer erros mais complexos e dispendiosos? Será que Kierkegaard, se pudesse sentar-se em uma mesa de cash game de PLO5, não riria da nossa tentativa vã de aplicar a razão pura em um ambiente onde a própria abundância de liberdade se converte na nossa escravidão perante as probabilidades matemáticas? E até que ponto a filosofia dinamarquesa do século XIX sobrevive ao teste de um river que destrói o seu "nut straight" com um "runner-runner flush"? ​E se tentarmos analisar essa evolução do jogo pelas lentes da música ocidental, que outras perguntas perturbadoras emergem? Imagine o Texas Hold'em como um canto gregoriano ou, na melhor das hipóteses, uma sonata monofônica onde a melodia principal — as suas duas cartas — canta de forma clara e isolada sobre a textura do bordo. Um bordo seco no Hold'em, digamos um Rei, Sete e Dois de naipes diferentes, permite que a sua melodia seja ouvida sem grandes interferências harmônicas. Mas quando passamos para o PLO4, e logo para o PLO5 e PLO6, a textura do jogo se metamorfoseia na polifonia densa e intrincada de Johann Sebastian Bach, talvez refletida na complexidade de "O Cravo Bem Temperado" de 1722. No Omaha, cada carta que você segura é uma voz independente em uma fuga a quatro, cinco ou seis vozes, e o bordo não é mais um pano de fundo estático, mas sim uma orquestra inteira respondendo em contraponto. Um "wrap" — aquele projeto de sequência com treze, dezessete ou até vinte outs — não seria o equivalente a uma dissonância jazzística clamando por uma resolução no turn ou no river? Como você espera reger uma orquestra de PLO6 se continua prestando atenção apenas à voz do soprano, ignorando o baixo contínuo que o seu oponente está pacientemente construindo? Mas, novamente, questiono a minha própria metáfora: a música de Bach é baseada em regras matemáticas divinas e imutáveis da harmonia, enquanto no carteado a harmonia que você constrói no flop pode ser brutalmente assassinada por uma cacofonia aleatória gerada pelo baralho. Poderá a arte realmente nos ensinar algo sobre um jogo onde o belo é frequentemente derrotado pelo puramente estatístico, ou devemos aceitar que não há beleza alguma no ato de apostar, apenas sobrevivência? ​Chegamos então ao cerne tático que tanto o aflige, a velha busca pelo Santo Graal das "dicas", que nos força a encarar o conceito tático mais cruel dessas modalidades: o pedrigree da melhor mão possível, ou "The Nuts", e a sua relação com os chamados "blockers". Em 1987, David Sklansky publicou o seu reverenciado "The Theory of Poker", estabelecendo que toda vez que você joga uma mão de forma diferente de como a jogaria se pudesse ver as cartas do adversário, você comete um erro. No Hold'em, essa teoria funciona como uma bússola relativamente estável. Mas, em nome de Sócrates, que utilidade tem essa bússola no PLO6? Quando o bordo apresenta três cartas de copas e você segura não o flush máximo, mas o segundo melhor flush, além de outras quatro cartas periféricas, a sua mão é um tesouro ou uma armadilha mortal habilmente disfarçada? À medida que escalamos do PLO4 para o PLO6, o valor das mãos não absolutas despenca vertiginosamente rumo ao zero. A segunda melhor mão no PLO6 não passa de um passaporte carimbado para a ruína financeira, pois a densidade da distribuição de cartas garante que o adversário quase sempre terá aquilo que representa. E quanto aos bloqueadores? Ter o Ás de copas solitário na mão enquanto o bordo traz três copas permite que você blefe representando o absoluto impossível para o oponente. Carl von Clausewitz, em "Da Guerra" (1832), fala magistralmente sobre a "névoa da guerra", a incerteza intrínseca dos campos de batalha. No entanto, no Omaha moderno guiado por solucionadores matemáticos (solvers), a névoa não advém da falta de informação, mas sim do excesso absoluto dela. Se você sabe que o seu oponente não tem as cartas máximas porque elas estão nas suas mãos mortas, mas você também não tem um jogo real, quem é o verdadeiro prisioneiro dessa informação? Será que a posse desse Ás o transforma em um estrategista genial, ou apenas em um tolo iludido que irá colocar todo o seu patrimônio em um blefe que o seu adversário, inebriado por cartas medíocres, simplesmente não terá a decência intelectual de abandonar? Clausewitz serviria para explicar por que aquele jogador recreativo pagou a sua aposta de três ruas com um mero par de valetes no PLO5? ​Não há resumo possível para a dor que acompanha a transição pelas modalidades do carteado, assim como não há resposta definitiva para o porquê de insistirmos em nos submeter a essa tortura voluntária. O que você me pede como dicas, a matemática pura e insensível responderia com imperativos frios: no Hold'em jogue a posição e proteja a sua equidade de mãos fortes pré-flop; no PLO4, busque a coesão absoluta, onde todas as quatro cartas trabalhem em uníssono para formar sequências e flushes que suportem os choques do bordo; no PLO5 e PLO6, abandone a esperança se não estiver segurando conexões divinas, descartando pares isolados e draws que não sejam em direção à majestade absoluta do nut. Mas se você adotar essa postura ultra-conservadora que os deuses da probabilidade exigem para o PLO6, jogando apenas mãos primorosamente estruturadas, como você conseguirá extrair valor de oponentes que inevitavelmente perceberão a sua nitidez e fugirão antes que o montante cresça? Se a adaptação perfeita destrói a própria fonte do lucro, não estaríamos diante de um paradoxo irresolvível onde jogar perfeitamente significa, no longo prazo, não ter com quem jogar? Como você pode equilibrar a exigência técnica de possuir o topo absoluto da distribuição estatística no PLO6 com a necessidade psicológica de parecer caótico, humano e, portanto, suscetível ao erro perante os olhos dos seus adversários? O baralho, afinal, recompensa a disciplina férrea ou ele reserva as suas vitórias mais sublimes e inesperadas para aqueles que têm a coragem — ou a completa insensatez — de abraçar o abismo e apostar contra as próprias probabilidades? A mesa está posta, as fichas estão empilhadas, mas eu lhe pergunto: antes de aprender como se joga com duas, quatro ou seis cartas, você já descobriu contra quem você está verdadeiramente jogando quando olha para os adversários e só consegue ver o reflexo dos seus próprios medos na superfície verde do feltro?

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Comentários (12)

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1 respostas
Brasil joaowennybar Especialista
Especialista

👁️‍🗨️👁️‍🗨️

Brasil Pape Fã

Pot limit omaha é um jogo safado, tem que ter muita atenção e não se deixar levar pelos outs pós-flop ou pela força da mão pré-flop.

8 respostas
Brasil joaowennybar Especialista
Especialista

Eu jogo de teimoso...

Sei quase nada de omaha.😅

Se eu perder três maos seguidas já saio da mesa.

Só jogo cash game.

Torneio omaha so jogo se for free

Brasil Pape Fã

Eu tenho notado que a distribuição aleatória das cartas(Gerador Randômico de Números (RNG) se comporta de forma diferente em algumas plataformas.

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Brasil joaowennybar Especialista
Especialista
Pape,

principalmente se você tiver muito acima dos demais. de 200BB acima


Brasil Pape Fã

Confesso que isso eu ainda não percebi.

Brasil joaowennybar Especialista
Especialista
Pape,

O "dealer" nunca te deixa ganhar muito dinheiro apenas numa sentada na mesa. 

Dobrou a grana, avalie sair ou mudar de mesa, não imediatamente, mas pelo menos aperte muuuito seu range.

Raramente se vê discrepância a enorme de dinheiro entre jogadores..

E se você tiver short, nunca dê allin, pois você raramente irá ganhar.

hahaha

Brasil Pape Fã

Esses outros pontos que você citou eu já percebi, se isso se aplicar àquela plataforma que estou pensando.😄

Editado
Brasil joaowennybar Especialista
Especialista
Pape,

😅


Brasil Pape Fã

😄

Brasil joaowennybar Especialista
Especialista

Boa reflexão!

🤙🤙🤙

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